Eu tinha nove anos quando a gente se conheceu. Você era da turma mais temida da escola, e eu, bom, eu era só mais uma nerdzinha. Você tinha 12 anos. Eu sempre te achei um idiota, eu sempre achei que você se achava o dono do mundo, da verdade, você e seus amigos. Até que certo dia, você pediu pra ficar comigo. Eu disse não, lógico, eu era uma criança. Mas você não ia desistir fácil. Em todo lugar que eu ia, você ia atrás, parecia que você era minha sombra, sempre me seguindo e tentando me impressionar. Um dia, eu sai da sala pra beber água, e você estava lá, e pela primeira vez eu falei diretamente com você. Você me deu tempo só de dizer “oi”, quando vi, você estava me beijando. E foi tão mágico que nem percebi acontecer. Você me pediu em namoro aquele dia lembra? Dia 28/04/2005. Eu não sabia o que estava fazendo. Eu só te deixava me guiar. Você cantava muito bem sabia? Sua voz era linda. E quando você cantava pra mim, nossa, eu estava no céu. Você me apresentou seus amigos, e sua irmã, e logo, você me fez feliz. Eu era tímida não falava com quase ninguém, mas você sempre me fazia falar, você insitia em dizer que amava minha voz. Resolvemos não contar pra ninguém. Só a gente sabia, só os seus amigos, só a nossa rodinha. Duas semanas de namoro, e você me apelidou de “balinha de limão”, eu realmente odeio esse apelido, mas quando você dizia, eu nem me importava. Um ano de namoro, e você me deu uma aliança linda, com seu nome escrito nela. Hugho Batista Souza. Eu mal a usava por causa da minha mãe, mas eu sempre a guardei junto comigo. Quando estávamos perto de fazer dois anos de namoro, você começou a ficar estranho, vivia falando que quando você morresse, era pra eu ficar feliz, que não era pra mim preocupar, você falava que aonde quer que você estivesse, você estaria comigo, e que você nunca ia me deixar, num dia desses, você me jogou a notícia. Eu tinha 10 anos, você tinha 13. Você me chamou pra conversar, eu estava tão feliz, mas minha felicidade acabou tão rápido. Eu ainda lembro das palavras que você usou: “Eu comecei com o Black quando tinha 9, e fui piorando com o tempo, cheguei até a usar maconha. Olha, quando a gente começou a namorar, eu ainda fumava, cigarro e narguile, mas quando a gente fez duas semanas de namoro, eu parei. Eu te juro que parei. E sabe porque? Porque eu vi em você um futuro. Eu vi em você tudo que eu precisava. Você é a melhor coisa que já me aconteceu, e eu sei que você não vai me perdoar por ter mentido pra você, mas era preciso, eu estou doente por causa das drogas. Meu organismo não vai aguentar muito tempo. Eu vou entender se você não quiser me ver mais, eu só queria que você soubesse que esses últimos dois anos foram os melhores anos da minha vida, e eu quero que você me prometa que você nunca vai fazer o que eu fiz. Que você nunca vai jogar sua vida fora igual eu fiz. Eu te amo.” A unica coisa que passava pela minha cabeça era “ele mentiu pra mim”. Eu fiquei com raiva, eu briguei com você, te xinguei, e joguei nossa aliança fora, eu não conseguia pensar de tanto chorar. Eu te virei as costas, disse que não queria te ver nunca mais.Se arrependimento matasse, eu estaria morta no segundo que eu te virei as costas. Eu não consegui dormir essa noite. No dia seguinte, você não foi na aula, nem sua irmã, e eu não tive coragem de chegar nos seus amigos. No dia que a gente ia fazer dois anos de namoro, eu te liguei, só que quem atendeu foi sua irmã, ela estava com uma voz fraca, baixinha, quase nula, eu perguntei de você, e ela só conseguiu falar: “amanhã eu te conto tudo na aula”. Quando ela desligou, veio uma enxurrada de coisas ruins que poderiam ter acontecido com você na minha cabeça, e eu desabei. No dia seguinte, ela foi na aula, estava com o rosto inchado, não dormia fazia dias. Ela me falou que você estava internado, e que ia pra Brasília semana que vem, porque estava só piorando. Ela me disse que você queria me ver, que você ficava me chamando. Eu pedi pra ir embora mais cedo esse dia. Eu cheguei em casa, e minha mãe me disse que iriamos mudar pra Monte Carmelo, uma cidade do interior de minas. No começo eu pensei que seria bom, vida nova, novos amigos. Estava enganada. Nas três semanas seguintes, eu só pensava em ir te visitar, mas não tinha coragem, eu não sei, mas alguma coisa me impedia de ir te ver. Eu perdi contato com seus amigos, com sua irmã, com todo mundo, eu voltei a ser aquela menininha de antes, eu não falava com ninguém, só andava de cabeça baixa. Todas as noites eu pedia, implorava, pra que você estivesse bem, eu dormia e acordava ouvindo nossa música, amor sem fim, lembra? Chegou o dia de você ir pra Brasília, eu tinha falado pra mim o dia todo que iria tomar coragem e falar com você. Mas eu não consegui. Eu cheguei a te ver deitado na maca, indo pra ambulância, mas não consegui chegar mais perto. Nem da sua irmã eu me despedi. Logo depois, veio o dia da minha mudança, nossa, já tinha se passado muito tempo. Eu não sei porque, mais eu não tinha acordado bem esse dia. Eu me sentia mal, sei lá, meio enjoada. A viajem durou uma hora. Eu cheguei aqui no Monte dia 22/06/2007 ás 18:30 mais ou menos. Quando eu cheguei aqui, eu começei a chorar, eu pensei que fosse talvez porque eu não iria mais te ver, e nesse momento eu te imaginei morto. E quando a sua imagem veio na minha cabeça eu fechei os olhos e pedi pra que você estivesse bem. 23/06/2007, recebo uma ligação ás 14:00, da sua irmã. Ela chorava muito, e perguntou se eu estava sozinha, eu disse que sim, e como se eu soubesse o que estava por vir, eu me encolhi e comecei a chorar junto com ela. Primeiro ela me falou uma história, que eu até já postei aqui, contando como você tinha entrado nas drogas e etc. Ela não conseguiu terminar. Eu desliguei, e não conseguia nem me mexer. Você morreu dia 22/06/2007 ás 18:38. A partir dai, eu engordei, porque eu não queria sair de casa, eu entrei em depressão, e não tinha amigos. Eu engordei mais de 20 quilos em menos de dois meses. Na escola, eu sofria bullying por ser gorda. E isso me marca até hoje, você tem noção do que é ter medo de receber um elogio? Ter medo de usar blusa sem manga, ou short? Ter medo de nadar, medo de se aproximar das pessoas, pensando que elas vão te julgar? Eu me sinto assim até hoje. Dentro de um ano, eu conheci aLais, que é minha melhor amiga e irmã. Ela, junto com meu primo,Rodrigo, me fizeram ver que a vida não são só momentos ruins. Eu começei a me soltar de novo, a ser feliz. Mas eu nunca me esqueci de você, eu sei todas as datas, eu ainda me lembro de tudo, eu ainda te sinto perto de mim. Eu acordo todos os dias, pensando em você. Não teve um dia até hoje, que eu não tenha pensado em como seria se eu tivesse ficado, em como seria se eu tivesse criado coragem pra ir te ver. Um ano sem você. Sua irmã me ligou, me contou que estava namorando com um dos seus amigos, você iria morrer se soubesse quem é. Ela me perguntou se eu queria saber onde você tinha sido enterrado, eu falei que não. Eu tinha prometido pra mim mesma que não iria lembrar, que não iria me torutrar. O tempo foi passando, e a vida me derrubou mais uma vez. Eu tive uma convulsão, não muito perigosa, mas o médico falou que se meu pai não estivesse acordado, eu estaria morta. Eu fiquei uma semana sem mexer o lado direito do meu corpo. O bullying continuava, e me machucava cada vez mais. Na oitava série, eu fui alvo de todos os tipos de brincadeiras possíveis. Teve um dia que eu tive que me trancar no banheiro da escola pra ter paz. No final de 2009, eu falei que ia dar um basta nisso. Comecei a fazer regime, caminhar, academia, e quando estava fazendo efeito, a vida me derrubou de novo. Eu tenho cisto piloneidal, que é uma má formação da coluna, bom, eu vou pular essa parte porque eu já contei essa história aqui também. Mas nesse meio tempo, em que eu estava entre a vida e a morte, eu tive ajuda. Você ia amar todos eles. Maria clara, mariana, mariany, edna, scarllet, eduardo, pedro, tiarley, joão neto, são alguns dos nomes dessas pessoas, fora aLais e o Rodrigo é claro. Eu não sabia se iria acordar no dia seguinte por causa da doença, e toda noite, eu escrevia uma carta. E nessa carta, tinha várias frases suas, na verdade, tinha um texto só pra você. Quando fez três anos da sua morte, sua irmã me ligou de novo, ela falou que ia ser a última vez já que ela estava de mudança para o exterior, ela estava casada e grávida daquele seu amigo. Ela disse que na hora que foi desmontar seu guarda-roupa, ela achou uma carta, num canto escondida, e essa carta tinha como destino: eu. Eu pedi pra ela ler pra mim, e eu te juro que nessa hora, eu pensei em te matar. Sério, como é que você pode fazer isso comigo? Escrever uma carta para mim e deixar ela guardada? Você tem noção do quanto que doeu? Mas bom, na carta estava escrito mais ou menos assim: “Eu nunca menti quando dizia que te amava, e nem quando te disse que você era a minha ultima esperança. Você nunca entedeu o porque de eu te chamar de balinha de limão né? Mais é porque, quando eu era criança, eu tinha um ursinho de pelúcia chamado balinha de limão, e eu amava muito ele sabe? eu tive ele até meus 11 anos. Só que um dia, eu perdi ele, e eu sofri muito. Ele foi a coisa que eu mais amei depois de você, ele era meu unico amigo sabe? Ele me fez muita falta, até eu conhecer você. Eu sei que essa carta talvez nem chegue nas suas mãos, mas eu só queria reforçar, o quanto você foi, e é, importante pra mim. Eu te amo tanto, eu fiz tanta merda pra você, se eu tivesse te falado a verdade seria diferente? Eu só não queria te perder. Obrigado por me mostrar que a gente vive a vida só uma vez, e que acabar com ela, bebendo e fumando, é pura idiotice. Eu te peço, por favor, nunca mexa com isso, você é tão meiga, tão sensível, tão perfeita. Não vale a pena. Eu te amo, hoje, e sempre, minha balinha de limão.” Na carta, ainda havia uma letra de música, que por um acaso é a que está tocando agora. Sua irmã ainda me falou uma coisa que me deixou no chão, ela me disse que um pouco antes de morrer você disse que queria me ver e que quando ela falou eu eu tinha mudado, você começou a chorar tanto que tiveram que colocar remédio pra você dormir na sua veia. O tempo passou, meu cisto melhorou, mas você ainda estava ali, nas minha lembranças. Sabe, eu me apaixonei de novo, mas não durou muito. Você foi o unico que fez valer a pena. O unico que realmente me deu valor. Eu pensei várias vezes em ir ver sua irmã, em ir te ver, mas sabe aquela coisa que me impedia de te ver antes? Poisé, ela ainda estava comigo, e ainda está. Eu só queria te pedir desculpas, por não ter ficado, por não ter de dado uma segunda chance, por não ter te amado o suficiente. Eu comecei esse post com a intenção de colocar um Fim na nossa história, com a intenção de te deixar no passado, mas agora, eu vejo que eu não consigo. Eu devo tudo, absolutamente tudo que eu sou hoje a você, meu jeito, minha risada, tudo. Vão fazer 4 anos. 4 anos sem você, e parece que eu ainda posso sentir seu perfume. Eu não sei quanto tempo vai levar, mas eu acho impossível, colocar umFinal na nossa história. Sabe porque? Porque uma vez, alguém me disse: Ninguém morre, não até essa pessoa, estar fora do seu pensamento, e longe das suas lembranças. E isso nunca vai acontecer. Não comigo, não com a gente. Todos os textos românticos que eu leio, eu penso em você, até hoje, eu nunca esqueci de nenhuma palavra que você me disse, porque você tinha que ir? Eu fiquei tão arrasada depois que você morreu. Ninguém sabe o quanto que eu sofri. Meus amigos sabem da nossa história, mas não toda, porque eu não conseguiria contar, porque dói. Dói muito saber que você não vai mais me abraçar, nem me levar pra casa depois da escola. Alguns amigos meus falam que eu tenho que te esquecer, que lembrar de você me faz mal, pelo contrário, lembrar de você é uma das coisas que mais me fazem bem. Eu só quero que você saiba, da onde estiver, que eu sempre vou lembrar de você, sempre. Eu te amo.
“Olhos fechados, pra te encontrar, não estou ao seu lado, mas posso sonhar. Aonde quer que eu vá, levo você no olhar. Aonde quer que eu vá. Aonde que que eu vá.”